A profissão de guarda-rios, que existiu em Portugal entre o séc. XVIII e o séc. XX (afecta aos Serviços de Hidráulica do Estado), foi extinta em 1995, altura em que havia mais de 300 operacionais, dando lugar apenas recentemente à de Vigilante da Natureza (afecto ao ICNF) – ver lista de referências no final deste ‘post’.
Ao guarda-rios cabia a função de gestão e protecção dos cursos de água, que incluía a fiscalização de actividades que afectassem o leito dos rios, as suas margens, ou a sua fauna e flora, como a extracção clandestina de areias, a pesca clandestina, o corte de árvores, ou situações de despejos/poluição. A relação de proximidade com as populações locais, mais ou menos pacífica ou conflituosa, fazia parte da sua actividade, que tinha também relevância na preservação dos espaços naturais. Pela natureza do seu ofício, mesmo que exercido em tempo parcial, os guarda-rios conheciam profundamente o seu território e mantinham uma relação próxima com os seus habitantes. Estavam assim numa posição privilegiada para aceder às diferentes dimensões (ambiental, social, económica, antropológica) desses territórios, desempenhado um papel fundamental na sua gestão e cuidado.

Na nossa segunda residência no Tejo Internacional, na Tapada da Tojeira (Vila Velha de Ródão) em Maio de 2020, tivemos o privilégio de manusear e admirar o espólio deixado por Alexandre Fonseca Augusto Jesus, conservado na sede da Junta de Freguesia de Perais, onde foi guarda-rios, ao cuidado da sua nora, Maria Manuela Fonseca. Conhecemos a Manuela por via da apresentação em Vila Velha de Ródão do ‘webdoc’ Rodom, da autoria de Patrícia Gomes, durante a nossa primeira residência naquela região (Outubro de 2019). Foi nessa ocasião que vislumbrámos pela primeira vez alguns dos desenhos de Alexandre Fonseca, complementados pelas histórias que ouvimos pela boca da nora (Manuela) e de um dos seus filhos, João Fonseca, também entrevistado por Patrícia Gomes (http://www.rodom.pt/#Alex_fonseca_menu).


Natural de Monte Fidalgo e autodidacta, mais tarde guarda-rios em diversos concelhos, culminando em Perais e no Tejo que conhecia como poucos, Alexandre Fonseca era um amante da sua região, para a qual sonhava um futuro de valorização e bem estar. Traduziu o conhecimento e amor profundos do território em desenhos a lápis de côr e escritos em verso, que vertia de memória nos últimos anos da sua vida em folhas recicladas e cadernos. Tal como escreveu Patrícia Gomes, Alexandre Fonseca “Provavelmente nunca soube que era artista. Registou tudo o que viu na vida, numa urgência de preservar cada detalhe para memória futura.” De facto, quer os seus desenhos, quer os seus escritos, testemunham as diversas práticas e actividades tradicionais da região ligadas à vida rural (agricultura, caça, festividades) e ao rio (pesca, azenhas, contrabando). Falam-nos por exemplo do Monte das Vilelas, baldio que é ainda hoje gerido comunitariamente, mas também dos diversos outros lugares daquele território através das histórias e lendas que lhes estão associados.

Transparece igualmente nos seus registos uma exaltação e carinho invulgares pelos valores naturais e ecológicos, que revelam uma alma de ambientalista ‘avant la lettre’. Os seus escritos descrevem ainda vários problemas da região: a seca, os incêndios, o abandono do campo, a desertificação humana, mas também o pouco apreço ou menosprezo por parte do poder político. Mas Alexandre Fonseca não se limita a testemunhar o que viu e viveu; opina sobre diversos acontecimentos locais ou nacionais, e discorre sobre temas sociais e religiosos. É, no entanto, na partilha dos anseios dos seus conterrâneos e dos seus próprios sonhos para o desenvolvimento da região que se sente mais intensamente a sua paixão e empenho. Mas acima de tudo, é o seu amor incondicional pelo território e por toda a vida que transparecem nos desenhos e na escrita de Alexandre Fonseca, de uma genuinidade e ingenuidade, ao mesmo tempo desarmantes e comoventes.
Com o ensejo incontido de partilhar aquele espólio precioso e de lhe prestar tributo, a equipa Guarda-Rios encontra-se presentemente a preparar uma publicação com base nos desenhos e escritos de Alexandre Fonseca, numa colaboração com a Oficina do Cego, para a qual contámos com a generosidade da Manuela Fonseca na partilha dos registos à sua guarda e com a mediação da Patrícia Gomes.
Álvaro
Referências
– Testemunhos sobre a profissão de guarda-rios:
Luís Alves, o presidente da junta que foi guarda-rios – Abrantes/Tejo
José Borges, o guarda-rios – Mondego, Alva e Alvoco
Guarda-rios – Reportagem RTP (arquivo 1992)
– Regresso da profissão como ‘Vigilante da Natureza’ (2019-2020):
Proposta de reintrodução da profissão (PAN)
Abertura de concurso para novos vigilantes (bacia do Tejo)
Opinião sobre regresso de ‘novos guarda-rios’ e combate à poluição (Tejo e bacias do Vouga e Douro)
Regresso dos guarda-rios às ribeiras do Porto (bacia do Douro)
Regresso dos guarda-rios a Abrantes (bacia do Tejo)
Contratação de guarda-rios pelo município de Torres Novas (bacia do Tejo)
