Guia para salvar rios

Assinalaram-se durante o corrente mês de Março duas datas relacionadas com os rios: o Dia Mundial de Ação pelos Rios e Contra Barragens (que se celebra a 14 Março) e o Dia Mundial da Água (22 Março). Embora estas efemérides nem sempre tenham o impacto que mereciam, é evidente que as intenções que lhes estão subjacentes merecem a nossa adesão. Daí o título que escolhemos para este post, inspirado num folheto do projecto Rios Livres da ONG de Ambiente GEOTA. Sabendo das ameaças crescentes à saúde dos rios, que decorrem de várias actividades e empreendimentos humanos, a expressão ‘salvar rios’ tem cada vez mais cabimento. É um desiderato ao qual aderimos com naturalidade pois subscrevemos a premissa que lhe está subjacente – a saúde dos rios é indissociável da sustentabilidade dos territórios que atravessam e do bem-estar das suas populações – e que se traduz na metáfora da imagem que encabeça este post. Os rios são de facto as veias do nosso planeta pois transportam água, sedimentos e nutrientes que alimentam inúmeras espécies e habitats que deles necessitam para sobreviver. O funcionamento natural do ciclo da água, assegurando o fluxo livre dos rios para o mar, sem obstáculos, garante água mais pura, um ecossistema mais saudável, a preservação das espécies endémicas e o transporte de sedimentos para a orla costeira. Pareceu-nos assim apropriado partilhar aqui algumas iniciativas recentes da sociedade civil, quer a nível nacional, quer internacional, alinhadas com o objectivo de salvaguardar e ‘libertar’ os nossos rios.

Rio livre (Rio Ardila, bacia do Guadiana)

Já tínhamos anteriormente aqui divulgado uma iniciativa que defendia a remoção de barragens ou outras barreiras no sentido de preservar a fauna piscícola dos rios, liderada pelo GEOTA. Em Outubro de 2020 esta mesma ONGA lançou a Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC) pelos Rios Livres que tem um objectivo mais ambicioso. Trata-se de um projecto de Proposta de Lei que estabelece a criação de reservas naturais de rios livres em zonas de proteção devidamente definidas. Esta proposta surge em resposta à falta de legislação que proteja globalmente os rios e respetivos ecossistemas e habitats em Portugal. A sua discussão e eventual aprovação na Assembleia da República dependem da angariação de pelo menos 4000 signatários, pelo que apelamos à sua subscrição (aqui).

Alguns meses antes, um conjunto de movimentos e associações ambientalistas liderados pela Campo Aberto e a Rede Inducar tinha lançado um manifesto (Uma epidemia abala o mundo – mas os rios ainda correm para o mar) dirigido às autoridades, à sociedade civil e aos diversos agentes económicos e sociais, que pretende alertar para a importância que a saúde dos rios e das bacias hidrográficas tem no equilíbrio dos ecossistemas e, portanto, na saúde das sociedades humanas. Embora com um enfoque na sensibilização, o manifesto apresenta diversas recomendações e propostas concretas no sentido da boa gestão e renaturalização dos cursos de água.

Barragem da Bemposta (Bacia do Douro)

A nível internacional e ainda em 2020, um consórcio de 150 ONGs europeias lançou um manifesto (No more new hydropower in Europe) focado na contestação ao financiamento público de novas barragens pelas instituições europeias, com o objectivo de cumprir as metas de descarbonização e de protecção da biodiversidade do chamado ‘European Green Deal’. O manifesto apela especificamente a que os investimentos públicos sejam redirecionados para a modernização das estruturas existentes, para a implementação de medidas de eficiência energética e de alternativas de energia renovável de menor impacto. Em Março de 2021, alinhado não só com este manifesto mas também com as iniciativas nacionais, a WWF publicou o relatório ‘Hydropower in Europe: transformation – not development’. Nele defende não só a suspensão da construção de novas barragens, mas também a mitigação dos impactos ambientais negativos das barragens existentes, assim como a regeneração dos rios para restaurar as suas funções naturais.

Todas estas iniciativas contrastam tristemente com o recente processo de venda de cinco barragens da bacia do Douro pela EDP a um consórcio internacional liderado pela Engie e a incapacidade das instituições públicas nacionais de o travar ou de salvaguardar o interesse público (ver p.ex. aqui), apesar da contestação de vários sectores da sociedade civil (ver p.ex. aqui).

Álvaro

Comer uma melancia junto a um rio

Um artigo recente no jornal Público, chama a atenção para a grande diversidade de peixes que vivem nos cursos ribeirinhos – “mais de metade das espécies conhecidas” – sendo que um terço destas espécies estão em perigo de extinção. Fala-nos também da Lampreia, que anda por cá desde os tempos dos dinossauros e cuja população está em rápido declínio, em Portugal e globalmente.

Seria bom de facto “que algumas luzes de alarme se acendessem”, por todas as razões óbvias, mas será que só conseguimos justificar a nossa ação de cuidar ou proteger a natureza pelo seu “valor económico” ou pela “manutenção de um planeta mais saudável”, como se tratasse de uma coisa distante?

Não bastaria dizer, que era bem melhor podermos dar um mergulho num rio, sem temos que pensar duas vezes? ou podermos comer uma melancia, sem ter que levar com um cheiro a sulfureto?

Felizmente, ainda não é esse o caso do rio Sever, onde estivemos em residência na primavera do ano passado.

Francisco

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Fotografia: Nuno Barroso

/ coletivo Guarda Rios no Rio Sever, piquenique com Patrícia Gomes e Steve Sprung /

Link para o artigo do Jornal Público.

Ambientalistas e investigadores propõem remover barreiras artificiais para impedir extinção da fauna endémica da bacia do Douro

O consórcio Rede Douro Vivo, composto por associações ambientalistas, como o GEOTA (que lidera o projecto) ou a ANP/WWF, e por investigadores das universidades do Porto, Coimbra, Nova de Lisboa, UTAD e Instituto Politécnico de Bragança, tem vindo a alertar para os diversos efeitos nefastos da fragmentação dos rios da bacia do Douro pelas 57 barragens (do lado português) e as mais de 1000 outras barreiras artificiais existentes naquele rio e seus afluentes (ver aqui e aqui). Para além de impedir que sejam transportados sedimentos até ao mar, aumentando a erosão da costa e reduzindo a quantidade de nutrientes necessários para algumas espécies a jusante, aquela fragmentação tem igualmente efeitos negativos em diferentes actividades económicas a montante. O outro grave impacto ambiental das barragens é o desaparecimento de diversas espécies endémicas (como a lampreia, a enguia, a savelha ou o mexilhão-de-rio) e a sua substituição por espécies exóticas invasoras (como o achigã, o lúcio-perca ou o siluro). Os estudos levados a cabo por aquele consórcio identificaram 165 barreiras ou açudes obsoletos em 5 afluentes do Douro, tendo sido criado um ‘ranking’ de 20 candidatos prioritários a remoção que foi submetido pelo GEOTA à Associação Portuguesa do Ambiente em Setembro de 2020 (ver aqui e aqui). A remoção daquelas barreiras permitiria preservar os 175 locais da bacia hidrográfica identificados pelos investigadores onde ainda existem ‘santuários’ de peixes nativos, sobretudo nos rios Tua, Côa, Arda e Paiva.